Origem do voto "Muita Merda" no Teatro para desejar Sorte

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João Valenças
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Origem do voto "Muita Merda" no Teatro para desejar Sorte

#1 Mensagem por João Valenças » terça dez 30, 2008 12:28 pm

Falta um minuto! O estrado do palco ressoa com os passos apressados das crianças, aos tropeções em adereços, fitas, cordas e pedaços de tecido espalhados no chão. De repente, tudo pára por entre risos abafados: chegou a professora. Ela observa os miúdos, ajeita-os um a um, olha para o relógio — está na hora. "Muita merda!", diz-lhes sorridente, para espanto de toda a criançada. Algumas até tapam a boca, sem acreditar no que acabam de ouvir. Mas há cento e setenta anos, tapariam a boca por um motivo muito diferente.

14 de Maio de 1835. É noite de quinta-feira à entrada da Sala Richelieu, junto ao grandioso Palais-Royal, em Paris, onde enormes cartazes anunciam a peça em cartaz. Trata-se de "Angelo", da autoria do famoso dramaturgo Victor Hugo, estreada há cerca de quinze dias com sucesso junto da crítica e do público. No entanto, as preferências de uma audiência são sempre imprevisíveis, e não é em duas semanas que se pode confirmar o êxito duradouro de uma peça. Mas, a caminho do Palais-Royal, os actores já têm essa certeza quando sentem o odor penetrante dos montículos de excremento espalhados ao longo da estrada. Viram a esquina para o teatro e eis que deparam com filas de belíssimas carruagens e coches, puxadas por dezenas de cavalos de pêlo lustroso à luz de inúmeras lâmpadas de gás... cujo calor intensifica o cheiro nauseabundo das carradas de fezes equestres que minam toda a praça.

O AROMA DO SUCESSO

O fedor é tão pungente que os actores têm de tapar nariz e boca ao atravessarem o pátio. Mas, para eles, é um momento de felicidade. Quanto mais esterco no chão, mais público de alto gabarito está presente e mais lucro a companhia encaixa. Ao longo dos próximos 62 dias em que a peça ficará em cena, a expressão "Merde!" será o voto de boa sorte mais trocado entre os actores desta trupe francesa antes da entrada em palco.

Sem dúvida que não foi nesta ocasião que este bizarro voto fecal teve a sua origem, pois já advinha da tradição circense dos tempos medievais, mas o ímpeto cultural do Neoclassicismo francês instaurou definitivamente este costume também em Portugal, não só no teatro, mas igualmente na dança, na música e mesmo no ensino superior. Curiosamente, neste último caso, o voto implantou-se por superstição — quem deseja "muita merda" antes de um exame está a tentar trocar as voltas à sorte, visto que desejar "boa sorte" trará inevitavelmente azar. Mas até nisto o voto tem o seu quê de literal: se o exame foi inesperadamente fácil, afinal aquela merda toda acabou por funcionar. Daí que tenha sido cagativo.
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