I Salon Internacional de Enganche... O que falta a Portugal?

Fórum da modalidade

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leonorlloret
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I Salon Internacional de Enganche... O que falta a Portugal?

#1 Mensagem por leonorlloret » terça abr 03, 2007 4:59 am

E nós? Ao menos vamos marcar presença?

Há pouco tempo lia num jornal espanhol um artigo sobre a crescente importância que a atrelagem tem vindo a conquistar no pais vizinho. Definida como uma modalidade “geradora de emprego”, dão a cara pelo evento, a decorrer em Setembro, o “Real Club de Enganches” e o Museu de carruagens, entidades chaves neste constatado desenvolvimento.
A realização na Andaluzia deste salão internacional de Atrelagens, vem assim testemunhar de algum modo a dinâmica que “nuestros hermanos” têm incrementado a modalidade.

Artigos como este, fazem pensar, não acomodando-me ao típico comentário português: “somos pequeninos”, mas pelo contrario tendo presente a tradição e património que conservamos neste nosso pais, reclamando justo destaque.
Aos nossos palácios e Museus não faltam peças que testemunham a história da atrelagem em Portugal. Não posso deixar de dar como exemplos o Palácio de Vila Viçosa assim como a coudelaria de Alter, que conservam sem duvida espólios únicos.
A realidade é que “Museu dos coches” não nós falta. O que nos falta então?

Não pretendo, nem poderia, constatar negativamente o desenvolvimento desta modalidade no nosso pais, quero sim transmitir a importância desta na nossa identidade, algo que em consciência não nos pode deixar a parte do que se passa lá fora.

luis pedro
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#2 Mensagem por luis pedro » terça abr 03, 2007 7:51 am

Olá Leonorlloret,

Benvinda ao forum.

Não acho que tenhamos uma grande tradição no que respeita à atrelagem.
Efectivamente existem vários museus com carros de cavalos mas são apenas recordações de outros tempos, parece subsistir alguma reminiscencia da tradição durante a "Golegã", mesmo a competição, com classificações que muito nos honram, resume-se a um pequeno núcleo no "Zambujeiro".

Apesar da opinião, acima expressa, considero importante que se fale da atrelagem e se tente recuperar antigos e ecológicos meios de transporte.

Luis Pedro

leonorlloret
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tradição...

#3 Mensagem por leonorlloret » quarta abr 04, 2007 5:32 am

“Tem-se por tradição no sentido amplo tudo aquilo que uma geração herda das suas precedentes e lega às seguintes.”

Caro Luís Pedro, penso que esta não é uma má definição para entender a importância que atribuo ao vasto espolio patrimonial que conservamos no nosso pais. De referir que temos peças únicas e significativas no que pode supor entender a história da evolução dos meios de transporte de tracção animal. Não são “apenas recordações de outros tempos”, mas identidade do que somos hoje.

A historia e os seus testemunhos são essenciais para conceber a evolução e o sentimento de um pais, sociedade e cultura… Que tenham persistido elementos que atestem os nossos gostos, necessidades, identidades ao longo da historia, já de por si deixa em relevo o significado que terá tido a atrelagem no nosso pais.

O facto de que a vivência actual da atrelagem não se sinta notória, não quer dizer que não tenhamos tradição na mesma. É nesse sentido que pretendi de algum modo com a minha intervenção alertar para não deixarmos unicamente em conceito museológico matéria que pode de alguma maneira ter um renovado significado a nível de lazer cultural e patrimonial.
Foi nesta medida que tomei o exemplo vizinho, querendo assim despertar o interesse para a revitalização da atrelagem no nosso pais.



Comprimentos

luis pedro
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#4 Mensagem por luis pedro » quarta abr 04, 2007 6:29 am

Olá Leonorlloret,

Concordo inteiramente com a definição de tradição, até por se aplicar perfeitamente aquilo que afirmei, herdamos das gerações anteriores os carros nos museus.

Os magníficos carros que existem em alguns museus apenas atestam o gosto pelo magestoso e a demonstração de poder (infelizmente já muito longínquo), como saberá foram comprados no estrangeiro, tal como hoje se compram "Roll's" ou "Bentley's".

No final dos anos 70, uns quantos entusiastas, tentaram relançar a modalidade mas o sucesso resumiu-se à competição e, mesmo assim a um pequeno núcleo, felizmente de grande qualidade.

Esta minha insistência deve-se apenas ao facto de gostar de chamar as coisas pelos nomes, não necessitamos de arranjar tradições para justificar o gosto por determinada actividade.

Apesar de preferir passear "escarranchado" aprecio a atrelagem e, do ponto de vista desportivo é espectacular para além de ser uma modalidade em que os nossos cavalos já brilharam e podem continuar a brilhar (apesar de terem encerrado a coudelaria que criou os "medalha de prata").

Luis Pedro

AnaE
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#5 Mensagem por AnaE » quarta abr 04, 2007 9:34 pm

Acho a atrelagem muito interessante e é uma maneira de viver o cavalo que serve muito bem a quem fisicamente não sente o apelo de andar escarranchado... para elém de ser uma actividade que serve muito bem à vertende de convivio.

Gostaria muito de aprender a conduzir "carros de cavalos", também a pensar na possibilidade de lá mais para frente já não ter muita agilidade para montar!

É estranho como uma actividade que até há poucos anos seria talvez uma das mais banais na utilização dos cavalos se tornou tão minoritária. Como em todas as outras... penso que a tendência será sempre para aumentar à medida que o cavalo e a equitação vá ficando mais acessível a todos!

leonorlloret
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tradição...

#6 Mensagem por leonorlloret » quinta abr 05, 2007 3:20 am

O conceito museológico de guardar peças, tem por base o entendimento de ambientes e objectos significativos para entender a história de uma sociedade nos seus vários níveis e características especificas.
Não é apenas por herança que se mantêm acervos museológicos, mas por que essa mesma herança tem uma consciência e um significado social e cultural inerente.
Certamente o que persiste são peças únicas, especiais, efectivamente grande parte de carácter magnificente, com as que sempre se teve cuidados devido a esse mesmo carácter exclusivo. O coche, charrete, carroça, biga, e demais meios atrelados usados quotidianamente tem mais dificuldade de subsistência, por esse mesmo factor de normalidade e banalidade do seu uso e pose.

O que é um facto é que até ao aparecimento do automóvel, os meios de tracção animal persistiram, conhecemos ate relatos de acidentes entre os dois meios de locomoção, que durante anos cruzavam-se nas ruas e estradas do nosso pais. Ainda hoje nas aldeias e núcleos do interior, não é tão estranho ver passar carros de trabalho puxados por burros ou mulas, e em muitas das casas ainda há resquícios de velhas carroças e carros de atrelagem guardados como graça e curiosidade familiar.

O facto de historicamente a nobreza, e mais tarde a alta burguesia terem tido necessidade de apresentar majestosos carros, que somos mais afoitos a observar nos museus, só pode querer dizer que estes eram elementos de importância social.
Existir necessidade de marcar a diferença, é sem duvida uma demonstração já não unicamente de poder mas igualmente da divulgação e regularidade que tal meio de transporte teria. Não pode em este sentido ser de estranhar que se optassem por buscar modelos estrangeiros, nós portugueses sempre prezamos um cosmopolitismo de modernidade alem fronteiras como referencia elitista.
De igual modo hoje em dia há os que possuem “Roll´s” ou “Bentleys” e os que andam de 4L. De certo chamara mais a atenção a passagem dos dois primeiros que do ultimo.

Agradeço a intervenção da AnaE pois penso que de um certo modo entendeu os pressupostos que quero transmitir nesta temática.
Não falamos apenas de uma modalidade mas de uma necessidade ancestral desde que se descobriu a roda.
Assim sendo, não pretendo “arranjar uma tradição”, mas constatar que ela existiu (e de certo modo existe, não é a toa que cada um de nos tem ou auspicia ter um carro para se deslocar). Que a nível da atrelagem, os seus exemplares tenham ficado a ganhar pó nos diversos museus e palácios já é outro assunto, que remete a conservação e vivência do património actualmente.

Igualmente não albergo nesta constatação qualquer ímpeto de nacionalismo ou prepotência paternalista, mas sim uma relação de história e evolução dos meios de locomoção em Portugal.
Relação esta que não podemos negar ser inseparável a tradição equestre em si, pois de igual modo que o Luís Pedro, também eu tenho maior gosto em passear montada, e não posso descurar nesse mesmo interesse ter presente tudo o que tal tradição equestre pode ter envolvido no nosso pais.
Lógica se intui, dentro da temática, a constatação de que nem toda a gente usaria os nossos magníficos exemplares lusitanos montados. Quanto muito para senhoras, crianças e clero a atrelagem terá sido, durante muito tempo, socialmente o meio de locomoção mais apropriado.
Na leitura de romances de época, que resultara mais amena que a de documentos, poderemos encontrar relatos de passeios em coches e charretes , leia-se por exemplo o retrato da Lisboa dos “Mais” de Eça de Queiroz, donde cavalos e carruagens marcam presença quotidiana.

De referir igualmente ter o primeiro automóvel como o entendemos e usamos hoje surgido em 1885, não crê caro Luís Pedro que até então a atrelagem era uma realidade neste pais?

As colecções museológicas não surgem por acaso, há toda uma história de usos, costumes e como tal de tradições por detrás de esta.

E quando fala de “relançar a modalidade” no final dos 70, algo por detrás haveria de referencia na tentativa de revitalizar a dita modalidade.
Que a temporalidade que atribui a nossa ancestralidade em meios atrelados seja, como diz: “ infelizmente já muito longínqua”, só quer dizer que ainda que longínquos eles existiram.

Não pretendo debater conceitos temporais, mas no decurso da humanidade, 100 anos não é assim tanto tempo.
De lembrar que em 1908 quando o Rei Dom Carlos foi assassinado junto com o seu primogénito no Terreiro do Paço, estes iam em coche. É o curioso é que no mesmo ano do regicídio, começam a ser fabricados por H. Ford os primeiros modelos em série de automóveis de combustão interna. Desde então realmente resulta mais cómodo e veloz ter um automóvel com cavalos vapor , mas não por isso que deixamos de chamar as coisas pelos nomes, como o próprio Luís Pedro defende.

Que se deixe de ter tão presente a noção histórica da atrelagem em Portugal, que os exemplares da mesma só persistam em modelos exclusivos nos museus, que se fechem coudelarias que incentivavam a pratica, e que apenas pequenos núcleos competitivos dêem ares da sua graça, não quer dizer que a atrelagem não tenha tradição no nosso pais.

luis pedro
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#7 Mensagem por luis pedro » quinta abr 05, 2007 6:45 am

Olá leonorlloret,

T'á bem, é uma tradição Portuguêsa.

Só para rectificar, o Ford T não era um automóvel de combustão interna, o motor é que era de combustão interna (chamar as coisas pelos nomes)

Luis Pedro

horses_s
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#8 Mensagem por horses_s » quinta abr 12, 2007 6:20 pm

Boas,

Aproveito o tema da atrelagem em Portugal para salientar o encerramento do Monte da Ravasqueira...
Após a realização da Taça Iberica de Atrelagem ter sido um sucesso...tudo se acaba!
E isto porquê?
Pelo que ouvi dizer, porque os futuros herdeiros não querem manter a tradição.
E assim vai o nosso país!
Tudo é possível até se provar que é impossível e mesmo o impossível pode ser só por agora.

AnaE
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#9 Mensagem por AnaE » quinta abr 12, 2007 9:51 pm

Encerrou o Monte da Ravasqueira...? :shock:

Rogers
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#10 Mensagem por Rogers » sexta abr 13, 2007 2:24 am

Infelizmente sim.

Uma coudelaria com animais tão bons tanto no ensino com na atrelagem e os filhos venderam tudo , enquanto o pai ainda estava em coma!!!!!!!!!!!

Fiquei muito triste com esta noticia e ainda por cima foi tudo muito rápido!
Nunca desistir, por muito dificil que seja que um dia...havemos de vencer!

AnaE
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#11 Mensagem por AnaE » sexta abr 13, 2007 4:48 pm

... é triste... mas quem não faz com gosto mais vale não fazer!

miguelafonsopaiva
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#12 Mensagem por miguelafonsopaiva » segunda jun 18, 2007 4:59 pm

:oops:

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