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Artigos - Diversos


ESCOLA PORTUGUESA DE ARTE EQUESTRE - Património cultural lusitano
15/09/2004
Com origens que remontam a 1748 e à Coudelaria de Alter, a Escola Portuguesa de Arte Equestre recupera os ensinamentos e antigas tradições da Picaria Real que fazem parte da herança cultural lusitana.

A Coudelaria de Alter foi criada no reino de D. João V, com o objectivo de fornecer cavalos de sela à academia da corte – que nessa altura funcionava no belo Picadeiro Real de Belém, o picadeiro barroco mais antigo do mundo que foi mandado construir pela Rainha D. Maria I. Com as invasões francesas, o Picadeiro ficou inactivo, tendo – já no tempo da rainha D. Amélia – dado lugar ao Museu dos Coches até aos dias de hoje. Aguarda-se a devolução desse espaço excepcional ao seu uso primeiro: o de treino e sede de exibição da Escola Portuguesa de Arte Equestre (EPAE).

A designação de Escola Portuguesa de Arte Equestre foi adoptada após o 25 de Abril, em 1979, numa iniciativa dos cavaleiros Dr. Guilherme Borba, D. José de Athayde, Dr. Filipe Graciosa (o actual director da EPAE), Francisco Cancella de Abreu, e o então e agora director do Serviço Nacional Coudélico, Dr. João Costa Ferreira. O grupo decide adoptar as ideias preconizadas pelo Dr. Ruy d’Andrade, que visava recuperar os ensinamentos e antigas tradições da Picaria Real. Insigne zootecnicista, o Dr. Ruy d’Andrade já havia salvo várias vezes o efectivo de Alter com as suas interferências e pressionou Guilherme Borba a encabeçar o projecto.

A recuperação da antiga Picaria Real não era mais do que o reactivar de uma estrutura que as vicissitudes do tempo tinham desactivado – por se crer que estava ultrapassada e que por essa mesma razão já não se justificava. A substituição do choque frontal com lança pelo uso da pistola esteve na origem de um novo estilo de equitação no campo de batalha a partir do século XVI; a partir daí, as técnicas de ensino do cavalo atingiram uma tal complexidade e perfeição que entraram mesmo no domínio da arte – a arte equestre que passou a satisfazer o gosto pessoal das casas reais, a beneficiar os regimes de cavalaria dos exércitos e a proporcionar à nobreza um novo modo de diferenciação social. Entretanto, esse tipo de equitação foi substituída por uma outra de cariz mais bélico: o regresso ao choque e à carga de cavalaria com arma branca exigia sobretudo velocidade, dispensando apuros de equitação. Só na Áustria e em Portugal a antiga equitação se foi mantendo paralelamente – na Áustria por razões de salvaguarda do património cultural; em Portugal porque o alanceamento de touros foi evoluindo até ao toureio equestre e porque o nobre cavalo de Alter (Alter-Real) desde sempre se excedeu nessa difícil arte.

Mergulhando na história portuguesa, o grupo de quatro cavaleiros encontrou na herança cultural lusitana os elementos indispensáveis à prática da Alta Escola – como são os cavalos do tipo antigo, a mesma equitação, os mesmos trajes e os mesmos arreios – para recriar as regras de equitação em vigor no séc. XVIII, numa continuidade e fidedignidade aos princípios da equitação. Estavam lançados os fundamentos da Escola Portuguesa de Arte Equestre.

Inicialmente, os encontros eram mensais – com reuniões no Picadeiro da Fonte Boa para treinos de coreografias de conjunto e coordenação de músicas. Em Dezembro de 1979, foi efectuada a primeira apresentação pública no estrangeiro: no Salão do Cavalo em Paris. Em 1981, deu-se a visita a Haia. Nesse mesmo ano, a Escola Portuguesa de Arte Equestre passou a ter instalações provisórias no Hipódromo do Campo Grande e a treinar na Sociedade Hípica Portuguesa – onde o grupo, mais numeroso com a adição gradual de novos membros, montava e praticava à noite. Em Portugal, os ‘Velhos do Restelo’ vão criticando a EPAE e os seus objectivos; extra-muros, os estrangeiros extasiam-se com uma equitação que para eles não tem paralelo na Europa.

O ano de 1985 é precioso: o general comandante dos Carabinieri italianos assiste a uma exibição e fica maravilhado; as visitas a Portugal da Rainha de Inglaterra, do Príncipe Filipe e do presidente americano Ronald Reagan também incluem demonstrações da Escola Portuguesa de Arte Equestre em actos oficiais. Em 1986, a Rainha Isabel convida a EPAE para se exibir em Inglaterra. Apesar da precariedade de meios e instalações, a instituição foi ganhando cada vez mais prestígio graças à competência dos Mestres, ao trabalho dos cavalos e à passagem do testemunho às gerações vindouras.

Em Maio de 1995, Simonetta Luz Afonso, Directora do Instituto Português de Museus, advoga uma nova dinâmica para o Museu dos Coches e o regresso da Escola Portuguesa de Arte Equestre ao Picadeiro Régio, «consagrando a perenidade das tradições áulicas e lúdicas da arte da picaria com a projecção que justamente merece numa das mais genuínas criações nacionais». Depois da promessa, o Conselho de Ministros apresenta a seguinte resolução em 17 de Junho de 1998: «A reactivação do Picadeiro Real, através da reconversão do actual Museu dos Coches e a reabilitação do espaço das antigas Cavalariças Reais, designadamente para instalação e treino diário da Escola Portuguesa de Arte Equestre».

Numa altura em que comemora as suas Bodas de Prata, a Escola Portuguesa de Arte Equestre prossegue na sua bem sucedida missão de manter vivos os ensinamentos tradicionais que nunca deixaram de influenciar a maneira de montar em Portugal. Paralelamente, e devido à prática – nunca interrompida – do toureio equestre, foi conservado o mesmo tipo de cavalo utilizado no século XVIII, bem como as mesmas selas e os mesmos trajes. Um património cultural equestre único no mundo e do qual Portugal se deve orgulhar, podendo ser admirado através de espectáculos regulares no Palácio Nacional de Queluz, às 11 horas de todas as quartas-feiras – de Abril a Outubro, exceptuando Agosto. Os ensaios efectuam-se às segundas, terças, quintas e sextas-feiras das 10 às 13 horas, nos Jardins do Palácio.


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